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Uma coisa que não tem nome

Histórias. É isso e nada mais que isso que o leitor vai encontrar em "Uma coisa que não tem nome". Histórias tiradas de lugar nenhum e de todo e qualquer lugar. Histórias de mim e de você. De meus domínios e alheias. Histórias de gente de verdade (em que a mentira pode existir) e de gente de mentira (em que a verdade pode aparecer). Histórias ora puramente literárias ora tão somente jornalísticas, e também as duas coisas juntas.


Eu...

Nasci de parto de parteira num casebre no pé da serra, em Patu, cidadezinha localizada na região serrana do Estado do Rio Grande do Norte, na boca do elefante, e que ganhou fama de terra de gente valente. É o que contam. Não fiquei pra saber. (...)

24 Dezembro 2006

- Crônica -
Deus, vá se danar!
Por Itáercio Porpino

Miguel colou no lábio o dedo indicador da mão direita. Antipático demais aquele sinal ordenando silêncio.
- Shhhhhhh, não fale essa palavra!
- Mas que idéia. É somente uma representação, digo, uma palavra, como você mesmo acabou de falar. Não existe essa coisa de diabo, filho. Quanta tolice!
- Pai, você disse de novo.
- E daí?
- Se falar o nome, ele vem.
Ora, que diabo! Quem anda enfiando essas merdas na cabecinha do menino? Seu Eustáquio sabia. Era coisa da amiguinha Verônica, do apartamento da frente. A menina tem dez anos, três a mais que Miguel. A família toda freqüenta uma igreja protestante. Não escapa nem Gustavo, o caçula de seis anos que ainda mija na cama.
Como se adivinhasse o pensamento do pai, Miguel foi explicando:
- É Verônica. Ela disse também que se eu continuasse comprando cartas de Yu-Gi-Oh, o D.I.A.B.O ia vir (soletrou baixinho, pois não se atrevia a pronunciar o impronunciável e tirar o demo lá das profundezas para piorar o inferno que já tá isso aqui). É por causa daqueles monstros (completou).
Eustáquio nunca tinha ouvido tamanha besteirada, ainda mais vinda do filho, sempre tão cético com as coisas da religião e das histórias de malassombro.
- Besteira, filho. São apenas cartas, figuras imaginadas e desenhadas no papel, tão reais quanto o diabo. Um jogo, só isso. E sabe o que mais?
- O quê, pai?
- Diabo, diabo, diabo, diabo, diaaaaabooo! Satanás, belzebu, coisa ruim, tinhoso, capeta, Lúcifer, demônio, cão, bicho de chifre...
O menino riu um riso sem muita convicção. E voltou a insistir:
- Pai, mas essa outra história é verdade.
- Quem disse?
- Verônica falou que o pastor da igreja contou depois de ler no jornal. E jornal não mente, né?
- Sei, fale.
- Foi assim: uma menina, né, estava com a boneca da Xuxa, aí a boneca criou vida e arranhou e mordeu a menina todinha. Quando a mãe viu, a filha tava morta. A boneca da Xuxa é do D.I.A.B.O. Verônica disse, quer dizer, o pastor quem disse. E ele viu no jornal.
Eustáquio achou engraçado e ao mesmo tempo ficou emputecido. Não exatamente com o que ouviu, mas com o que estava por trás daquela historinha de horror trash da irmã loura do Chucky.
- Os jornais mentem sim, e também erram, mas não é desse jeito. A Xuxa é uma pateta, somente. Agora esse pastor é mentiroso e ladrão.
Ficou com vontade de dizer ainda que o pastor é que era o diabo. Crápula chantagista, inescrupuloso e vil, ladrão de dinheiro e de almas. Só não disse para não confundir a cabecinha do filho, a quem falou com bastante serenidade e de um jeito mais simples do que o que vem escrito a seguir.
- Esses pastores botam medo nos outros, falam mais no diabo do que em deus. Todas as mazelas - desemprego, dor de cabeça, câncer, AIDS, chifre - são obra do diabo. É o que dizem pra toda essa gente, um monte de desvalidos psicologicamente, moralmente, financeiramente; gente que não lê livros, escravos da ignorância, cegos. Os pastores dizem que só indo pra igreja e dando dinheiro, toda semana, é que essa gente vai se curar. Caso contrário, cairão nas garras do diabo e queimarão nas labaredas dos infernos.
As crianças, coitadas, castradas desde cedo, com seus desejos e fantasias de infância sufocados. Verônica e o irmão, por exemplo, não podem ver os filmes do Harry Potter porque bruxaria, mesmo no cinema, é coisa do diabo.
Eustáquio lembrou disso, olhou para o filho e pensou:
No que depender de mim, nenhuma igreja vai enganar você; nenhuma religião vai usurpar e dilacerar seu coração. Quando for grande, faça o que tiver vontade e o que lhe encher de prazer. Pare quando achar que está atropelando a ética, os princípios morais que aprendeu em casa e nos livros. Ignore essa história de pecado e redenção, de diabo, purgatório, inferno e paraíso. Mande às favas tudo isso e viva, viva tudo. Porque a única coisa que se sabe com certeza é da morte. Quanto a esse deus castrador, chantagista, opressor, mande ele se danar.
Eustáquio quis dizer mais coisas ao filho Miguel, falar também da Igreja Católica, de como ela oprimiu e ainda oprime as mulheres; de como tenta consertar tanta coisa ruim que fez em nome de deus; da intolerância com os gays; das almas enclausuradas na tristeza pelas leis arcaicas e absurdas que atentam contra o livre arbítrio, a sensatez e a felicidade. Queria falar, por último, de uma notícia recente que saiu nos jornais (essa, verdadeira), revelando mais uma vez a face opressora, hipócrita e intolerante da Igreja Católica Romana.
Era a morte do italiano Piergiorgio Welby, de 60 anos, que pediu para seu médico desligar os aparelhos que o mantinham respirando, pois não considerava aquilo vida e sim uma tortura. O homem sofria de distrofia muscular avançada e se comunicava apenas por meio de um computador que interpretava os movimentos de seus olhos. A Igreja negou o pedido da família por um funeral religioso por não admitir em hipótese alguma a prática da eutanásia. E pensar que essa mesma Igreja conseguiu ser o império que é matando montanhas de gente. Nessa hora, Eustáquio queria ser da família do italiano só pra mandar a Igreja enfiar no rabo seu funeral católico. E que fosse pro diabo!
Acabou que não falou nada disso pro menino. Ele não ia entender mesmo. Disse apenas que esquecesse essas bobagens todas e que continuasse jogando as cartas de Yu-Gi-Oh e o que mais fosse apropriado à sua idade; que continuasse duvidando de tudo, principalmente de deus. Nada pior que um tonto manipulável.

10 Dezembro 2006


A mão que afaga é a mesma que mata (parte I de III)
por Itaércio Porpino/foto: Júnior Santos (reportagem publicada na Tribuna do Norte em 10 de dezembro de 2006 - com alguns enxertos, alterações e um bônus)

A todos os machões

Tereza Souza de Lima, professora, 43 anos, fazia poucos meses que estava separada de Francisco Canindé de Araújo, 39. Patrícia de Souza Assunção, cobradora de alternativo, 18 anos, namorava Igor Camboinha, 25. Monaliza Dias, universitária, 20 anos, tinha terminado o namoro com Darlan Raniere, 27. Essas três mulheres morreram este ano. Assassinadas.
As mãos que afagavam Tereza, Silvana e Monaliza foram as mesmas que as mataram. A professora foi morta a tijoladas pelo ex-marido. A cobradora de alternativo, assassinada a tiros pelo namorado. A estudante universtária levou uma bala na cabeça disparada pelo ex-namorado.
Casos como esses são mais comuns do que se pensa. Neste ano, em Natal, nove mulheres morreram assassinadas. Seis (quase 70%) foram mortas pelos companheiros, atual ou ex. Os dados estão nos inquéritos policiais enviados para a Justiça pela Delegacia de Defesa da Mulher que funciona na Ribeira. A barbárie é global. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quase metade das mulheres assassinadas no mundo é morta pelo marido ou namorado, atual ou ex.
São crimes que chocam e ganham grande repercussão, sempre. Não importa onde aconteçam. O mais recente ocorrido em Natal, da estudante universitária Monaliza Dias, causou ainda mais estarrecimento pelas circunstâncias: passava pouco das 4 horas da tarde. Os ex-namorados Darlan Raniere, 27, e Monaliza Dias, 20, discutiam enquanto caminhavam na passarela sobre a BR-101, entre Mirassol e Candelária, dois bairros nobres da cidade. O movimento de gente, adultos e crianças, era grande no local, como de costume nesse horário. Darlan puxou uma arma e atirou na cabeça de Monaliza e contra o próprio ouvido. Os corpos ficaram estendidos lado a lado na passarela, as mãos se tocando. O episódio poderia estar num livro de Nelson Rodrigues, mas aconteceu de verdade, no último dia 5 de dezembro, uma terça-feira.
Possessão, ciúmes. No fim, a razão de tanta barbaridade vem à tona como nas crônicas rodrigueanas. Raniere não se conformava com o fim definitivo do namoro, ocorrido em outubro deste ano. Mas a ex-namorada não quis ceder, diferente do que sempre fez das outras vezes, com medo dele cumprir a promessa de se matar. O relacionamento era conturbado devido ao comportamento obsessivo de Raniere. Dois dias depois ele teria que comparecer à Delegacia Especializada da Mulher para responder sobre as ameaças de morte que fez a Monaliza.
O policial civil Francisco Canindé de Araújo, de 39 anos, não aceitou a separação da mulher, a professora Tereza Souza de Lima, de 43 anos e, no dia 15 de agosto a matou a tijoladas. Tereza se separou depois de passar 13 anos apanhando de Francisco.
No dia 9 de março, por motivo de ciúmes, o soldado da Polícia Militar Igor Camboinha, 25 anos, brigou com a namorada, a cobradora de alternativo Patrícia de Souza Assunção, 18 anos, e acabou atirando na cabeça dela. Patrícia morreu oito dias depois, na UTI do hospital Walfredo Gurgel.

A mão que afaga é a mesma que mata (parte II de III)

Um ato despropositado, sem sentido, egoísta. Um total desatino. É de se pensar e dizer muita coisa na tentativa de racionalizar sobre o que levou o soldado do Corpo de Bombeiros Darlan Raniere a matar Monaliza Dias e cometer suicídio.
A psicóloga Elza Dutra, professora do Departamento de Psicologia da UFRN, dá uma pista. Ela aponta para a construção do mito do amor romântico e para a perpetuação, durante séculos, de uma cultura que mantém a mulher como propriedade do homem.
"Claro que cada um tem suas singularidades, suas subjetividades, mas a pessoa é construída historicamente. E o sentimento de amor construído historicamente, na família, na sociedade e pela religião, foi o do amor romântico - de Romeu e Julieta, da cara metade, da alma-gêmea. Essa forma de relacionamento tira a individualidade do ser humano", diz Elza Dutra.
A psicóloga fala que é natural a pessoa procurar ser amada, pois é da condição humana se angustiar com a solidão, com o desamparo. "O homem está o tempo todo querendo ser aceito, ser igual ao outro. Mas essa busca não deve extrapolar o limite da boa convivência, do respeito ao direito do outro", ensina.
Darlan Raniere ultrapassou esse limite, o que normalmente acontece com muitos homens e mulheres que desenvolvem um nível de possessão e ciúmes danoso. Elza Dutra classifica como amor patológico. "Nesse estágio, a pessoa perde a percepção da realidade. É como a anoréxica que chega aos 38 quilos e ainda se sente gorda", exemplifica a professora.
Se for partir para o conceito da ética, dá para dizer que o indivíduo, nessa situação de Raniere, fica cego a ponto de tornar-se um ser amoral (sem noção do certo e errado). "Perde-se a noção do respeito ao outro, perde-se a ética", diz.
É nesse ponto que Elza põe em xeque o papel da família. "A família muitas vezes não estabelece limites nem dá noções de ética e moral aos filhos, o que deveria acontecer desde cedo". A psicóloga defende que se alguém investigar o histórico desse rapaz e de outras pessoas com o mesmo comportamento, muito possivelmente vai identificar problemas de desvios de conduta, de transgressões. E a origem está, na maioria das vezes, na falta de limites. O certo é que pessoas que desenvolvem uma obsessão como a de Raniere também passam por um sofrimento muito grande.
Por outro lado, as mulheres prendem-se aos homens muito também em razão do mito do amor romântico, associado ao sacrifício e sofrimento que ela nasceu para suportar, segundo é ensinado. Como entender mulheres independentes financeiramente, mas dependentes afetivamente? É a idéia "irrefutável" de que a felicidade está no amor, mesmo com sofrimento, com sacrifício. A história dita isso. A cultura ajuda a perpetuar. "A história diz que amar é sofrer. Isso está nas músicas", fala Elza.
Verdade. E não é necessário descer ao fundo do poço e do grotesco que é o forró e a música capipira desses grupos e duplas disseminados pelo Brasil. Vinícius, o poetinha, cuja obra é uma bela ode à paixão, cantou "porque a vida só se dá pra quem se deu/pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu..."

A mão que afaga é a mesma que mata (o bônus - parte final)

Foi uma vez: no negrume da madrugada, erma e sombria. Um vulto terrível balançava. Era o corpo de Francisca Nazário (27), teso, pálido. Uma casca vazia e nada mais. A menina de 7 anos tremeu com a visão. Um vento gelado, que não vinha da madrugada lá fora, apareceu de súbito e percorreu toda a espinha da criança, de baixo até em cima. O espectro da morte era a mãe, dependurada com a corda no pescoço. A menina viu ainda a irmãzinha Gabrielle, de 2 anos, quieta. A alminha tinha-se ido. Fenecera também. Tão tenro.
Como se já não bastasse toda aquela bruta miséria, a mais megera miséria física, tinha mais isso agora. Só 7 anos. A menina nem foi apresentada à paixão, mas já é vítima desse sentimento em nome do qual adultos se ferem e se matam. A mãe sufocou a pequena Gabrielle e se enforcou. Foi um ato desesperado. Francisca entendeu que era o único jeito de fugir do companheiro violento que vivia ameaçando matá-la; o único jeito de não sofrer mais nessa vida. Tá tudinho explicado nesse bilhete que ela deixou:
"Minha irmã me perdoe por eu ter que fazer isso estou agindo por medo e covardia Genilson só vivia me ameacando que iria me matar 2 vezes já tentou então antes que ele faça alguma coisa faço eu. Assim que você ler este bilhete vai lá em Ronaldo e peça pra ligar pra João e mandar ele vim buscar os meninos dentro do esquilo tem 7 reais é pra dividir pra Vitor e Vameni as coisas deles estão na mala e numa bolsa, dizer a carlinho que deixe os 10 reais pra lá e se caso a polícia entre no meio a culpa é de Genilson. Estou levando a menina comigo porque ele é um covarde e não merece ela. Dentro da bolsa dos meninos tem um bilhete pra João peça pra ele lê. Amo todos vocês. Adeuz. O galo é de Vitor e Vameni. Não deixe Genilson levar Peça pra João levar junto com os meninos. Diga pra mãe que eu deixo abença e dou a benção dos meus filhos. Beije muito eles antes de tudo. Adeus. A rede é de Vitor. Os lenções são seus. O que não quiser meu pode queimar."

Nota: o texto acima conta uma história real acontecida em outubro deste ano na favela da África, na Redinha - Natal. O bilhete também existe. Francisca deixou dois filhos do primeiro relacionamento - Vitor (8) e Vameni (7). A matéria original foi publicada na TRIBUNA DO NORTE do dia 24/10/2006 -www.tribunadonorte.com.br. Jacson Damasceno foi o repórter que escreveu. As mãos da foto que abre o post são de Raniere e Monaliza. Ela foi capa da edição da TRIBUNA DO NORTE do dia 6/12/2006.

30 Novembro 2006


O Último dos Ofícios
Texto: Anne Caroline e Itaércio Porpino/fotos: Itaércio Porpino (extraído do ensaio/documentário O Último dos Ofícios, de 2001 - um retrato humano da morte, pela visão de quem vive dela)

PRÓLOGO

Noite de 22 de junho de 2001, sexta-feira, véspera de São João. Um estudante de 15 anos é morto com um tiro, no bairro do Alecrim. Junho Máximo de Santana, agente funerário há 22 anos, acostumado a vestir, limpar e transportar defuntos, não tem coragem de ir pegar o corpo, de fazer nada. Conhece a família. "Tem sepultamento que o motorista faz e só não chora dirigindo porque tem que se segurar mesmo".
Tarde de 25 de junho, domingo, enterro do estudante no Cemitério do Alecrim. André Valério, coveiro há 18 anos, acostumado a fazer exumação sem usar luvas, faz o enterro o tempo todo de cabeça baixa. Em absoluto, olha direto na cara das pessoas. Assim vence a vontade de chorar. Disfarça com um sorriso perdido, escondido sob o boné velho e roto. "Muitas vezes dá vontade de chorar, mas a gente se segura".

OS ESCOLHIDOS
Salvo raras exceções, ninguém escolhe a área funerária. É escolhido. A maioria não está ali por predisposição ou vocação...

André Valério, 50 anos, coveiro. Era operário numa fábrica de fazer prego e arame farpado. Não gostava de cemitério. Estava parado e ia pro Rio de Janeiro tentar a sorte na cidade grande. Um conhecido perguntou se ele queria trabalhar como coveiro. Isso já tem 18 anos. Perdeu as contas dos enterros e exumações que fez.
João Galdino, 29 anos, coveiro. Trabalhava na agricultura no interior. Nunca sonhou em um dia ser coveiro. Estava parado e ia para Recife tentar algo por lá, quando um amigo avisou da vaga no cemitério. Está no emprego há cinco anos. Quando precisou, foi o único no cemitério que teve coragem de encarar uma exumação.

Francisca Francineide Firme da Silva, 52 anos, servente de cemitério e funerária. Trabalhou dez anos como costureira numa fábrica de sacos, até ficar desempregada. Não pensava em trabalhar em cemitério. Tinha medo de defunto. Entrou no ramo por indicação, em 1996. Dá banho, veste, arruma e maquia mortos.

João Maria, 42 anos, zelador de túmulos. O cemitério sempre foi seu mundo. Brincava entre os túmulos quando moleque, enquanto a mãe cuidava da limpeza. Seguiu o ofício da mãe, assim como as irmãs.

José Valério Cavalcante, 46 anos, cardiologista e médico legista. Sempre soube que ia ser legista. Foi exceção em sua turma de medicina. A especialidade de cardiologia foi secundária, e a de médico legista, primária. Trabalha no Instituto Médico Legal há 20 anos. Assinou 21 atestados de óbitos num único dia.

O ÚLTIMO DOS OFÍCIOS
Trabalhar na área funerária ou ligado a ela é lidar no dia-a-dia com a desgraça alheia. Quase ninguém quer. Mas os que entram acabam se acostumando com o serviço e tomando gosto...

Junho Máximo de Santana, 57 anos, agente funerário. Sente-se recompensado ao saber que tudo foi resolvido com sua ajuda. Não é raro ir pegar um corpo e se deparar com uma família pobre. Falar com o dono da funerária e conseguir de graça o caixão, mortalha, isso ele já fez. Também costuma encaminhar a família à delegacia para que ela tire atestado de pobreza e seja dispensada de pagar o enterro. Conquistou a amizade de muita gente assim.

José Valério Cavalcante, cardiologista e médico legista. Sempre teve atração por medicina legal pelo desafio. "É uma especialidade que exige muita observação e pesquisa. O legista conversa com o morto. Tem que dar elementos para a polícia dizer: esta não foi uma morte natural. E é um trabalho árduo, em que se trabalha com todo tipo de podrura que possa existir". Mas não há nada que se compare ao mal estar de ver um corpo aberto de uma criança.

Francisca Francineide Firme da Silva, servente de cemitério e funerária. O marido pediu para ela escolher entre ele e o emprego, pois não queria vê-la trabalhando no horário noturno. Francisca ficou com a segunda opção. Ela faz de tudo um pouco e quer sempre aprender mais.

João Maria, zelador de túmulos. Não lida com a morte, propriamente, mas com famílias que têm parentes sepultados no cemitério. Aos poucos foi fazendo nome como zelador de túmulos e não deseja trabalhar em outra coisa. Só pára quando morrer. Passaria facilmente o trabalho para os filhos, mas não quer. "Quem entra nesse ramo, toma gosto. Quando vê, não sai mais".

À IMAGEM DA MORTE
As pessoas que trabalham ligadas à área funerária, normalmente são estigmatizadas e evitadas. É como se, ao desempenharem suas tarefas, estivessem encarnando a própria morte...

Marivaldo Amaro da Silva, 31 anos, tanatólogo. Procura não comentar sobre o seu serviço com a família, que vê o trabalho com preconceito. Perguntam se ele pretende passar muito tempo nisso. Responde que Deus é quem sabe.

André Valério, coveiro. "Muita gente não gosta de coveiro. Acha que ele é mau, que não tem pena de ninguém. Pedem para não enterrar o ente querido e até se agarram no caixão". André costuma pedir licença, espera um pouco e termina o serviço.

João Galdino, coveiro. Não guarda segredo sobre o que faz, mesmo tendo que enfrentar algumas cismas. Encara como uma missão. "A profissão é essa mesma e a gente tem que levar a vida assim. É preciso fazer o serviço, mesmo que a família não queira". Antes, sempre pergunta se alguém quer ver o morto, para uma última despedida.

Ronaldo Alves de Melo, 38 anos, necrotomista e tanatólogo. Comenta abertamente em casa sobre o serviço, despertando a curiosidade do filho de 12 anos, que pede para acompanhar de perto o trabalho. A filha mais nova não aprova. Não gosta de falar no assunto.

ELES TAMBÉM CHORAM
O fato de um profissional ligado à área funerária executar seu trabalho com "frieza", não faz dele uma pessoa insensível diante da morte...

Alana Freire de Oliveira, 23 anos, gerente de funerária. Não sente muito ao ver um corpo de uma pessoa desconhecida, pois não sabe do histórico de vida dela. Demonstra respeito pelo morto e pela família. Tem consciência de que as pessoas ali estão sofrendo mesmo, não estão fazendo de conta.

João Galdino, coveiro. Não sente nada quando está sozinho abrindo um túmulo. Fica meio cismado na hora do enterro, ao ver alguém chorando ou ao ouvir um discurso, dizendo "que o finado era boa gente". Aqui e acolá, nos seu olhos ainda quer correr uma aguinha. Não teve coragem de enterrar o pai.

André Valério, coveiro. Muitas vezes sente vontade de chorar quando faz o enterro de uma pessoa nova, que tinha tudo pela frente. Lembra que podia ser um de seus filhos. Mas fala que é preciso fazer o serviço com a maior frieza possível. Conta o caso de um coveiro que foi lhe ajudar num enterro e começou a chorar no meio de todo mundo. "Tem que se segurar. Se chorar, não dá para o trabalho".

José Valério Cavalcante, cardiologista e médico legista. "Como se manter insensível se a gente só se depara com a dor alheia? A função é a mais ingrata que existe. Muitas vezes você está ali pegando um indivíduo com toda a capacidade de trabalho, em início de carreira, com a família dependendo dele, e que teve a vida encerrada por uma razão súbita".

QUANDO ELA CHEGA
A consciência e a aceitação da morte de forma natural é algo difícil. Para muitos, insuportável. Os "profissionais da morte" também guardam certo temor do assunto, embora tenham uma visão singular por estarem habituados à idéia do morrer...

João Maria, zelador de túmulos. Não tem medo de morrer. Mas quer uma morte tranqüila. Pede a Deus para "morrer do coração".

Marivaldo Amaro da Silva, tanatólogo. Tem receio de morrer. É religioso e pede sempre a Deus muito tempo de vida, pois acha que ainda não está preparado. É acometido por uma angustia sempre que vê uma morte ligada à obesidade, característica de sua família.

Francisca Firme da Silva, servente de cemitério e funerária. Vê a morte como algo normal e justa, pois leva a todos, ricos, pobres, pretos, brancos. Quer morrer com cem anos.

Luciano Xavier, zelador de cemitério. É conformado com a morte, mas não quer morrer tão cedo.

Junho Máximo de Santana, agente funerário. Pensa que todos deveriam se preparar para esse dia. "Todo mundo tem que pensar que vai mesmo, pois quando a hora chega não tem quem evite".

19 Novembro 2006


A juventude contra-ataca - histórias de violência juvenil (continuação) parte I de II
por Itaércio Porpino/foto: Alex Regis (adaptado da reportagem publicada na Tribuna do Norte em 19 de novembro de 2006 - feita "nas coxas")

A Quarta Travessa, no bairro de Mãe Luiza, em Natal, compõe junto com o aglomerado de casas um desenho desordenado que é bem o retrato da periferia. Guris empinam pipa, enquanto nas calçadas velhos observam o movimento de gente. O cotidiano no subúrbio não tem a monotonia dos bairros de rico e de gente mais ou menos, e nem é tão violento quanto falam. Violência maior eles dizem que é a da exclusão social, da discriminação que sofrem. A outra, da venda de drogas, do tiro, da morte, também preocupa, mas não acua os moradores.
A comunidade reage, contra-ataca. Na mesma travessa, já quase no final, perto da escadaria de cimento que dá acesso ao asfalto, tem uma escolinha, quase escondida. Um quartel general onde um exército de soldados mirins é treinado diariamente para a cidadania. O lúdico toma o lugar da disciplina rígida. A arte, o esporte, as historinhas infantis e a brincadeira são as armas.
O trabalho, iniciado pelo padre italiano Sabino Gentilli (1945 - 2006), que adotou Mãe Luiza e morou lá por mais de 20 anos, atende hoje 220 crianças da comunidade, de 3 a 6 anos. As atividades, mantidas com o dinheiro da paróquia, são tratadas como passatempo construtivo. O balé, a capoeira, a pintura, a música e o maculelê servem primeiramente para elevar a auto-estima. Daí a um ou outro revelar-se um talento, é outro passo. O estímulo existe.
O pequeno Joseffer, de 5 anos, fala que quer ser mestre de capoeira quando crescer. Jeito pra coisa, tem. Joseffer diz saber todos os movimentos da capoeira: macaquinho, estrelinha, meia-lua, mortal. E sabe mesmo. A torcida é para que ele não perca o gingado maneiro, pra poder escapar às armadilhas da vida na periferia, pobre e desassistida.
Jonathan, de 6, fala que aprende capoeira, maculelê e também a ser um menino legal. Noções de cidadania, respeito e ética fazem parte do dia-a-dia na Escola Espaço Livre. As atividades não dão chance para a perigosa ociosidade e abrem uma nova perspectiva para os pequenos moradores de Mãe Luiza. Que eles mirem-se nos exemplos de Walter Rodrigues do Nascimento, 18, e Juscelino Pereira Rodrigues, 19.
Os dois hoje dão aula de capoeira para a meninada da escola. O trabalho tirou Walter e Juscelino da situação de risco. Antes, eles estavam envolvidos com torcidas de futebol - rivalidade besta que tem matado muitos jovens na cidade. Chegaram a participar de brigas, por motivo dessa rixa mas também devido à rixa que existe entre bairros. Walter chegou a ser preso depois de se envolver em uma briga. A pena foi prestar serviço comunitário gratuitamente no bairro. Começou, então, a dar aulas para as crianças da Escola Espaço Livre. A punição terminou, ele permaneceu, e ainda recebendo uma bolsa mensal de R$ 150. Olhando para o bairro em que mora, Walter enxerga como principais problemas a falta de oportunidade e a discriminação. "Mãe Luiza não é violenta como dizem. O que existe é muito preconceito".
No bairro, além da Escola Espaço Livre para as crianças pequenas, também funcionam a Casa Crescer, que desenvolve atividades esportivas e artísticas com meninos e meninas entre 8 e 18 anos, e o Centro Sócio-Pastoral Nossa Senhora da Conceição, que oferece gratuitamente cursos de informática e de língua espanhola à comunidade. Os dois projetos também foram implantados e tocados durante muito tempo por padre Sabino, até sua morte, em 8 de julho deste ano.
A pedagoga Edilsa Gadelha, uma das coordenadoras dos trabalhos, entende que a violência na periferia está ligada à falta de perspectiva, de políticas públicas que permitam aos jovens sonhar com um futuro melhor. "É um jogo difícil de virar, mas nós tentamos", diz.

A juventude contra-ataca - histórias de violência juvenil (parte final)

O buzão passa e os moleques tacam pedra, num contam conversa. Diversão, ira, revolta? Vai saber...
O motorista, cabeça quente já, também não conta conversa:
Filhos duma puta, escrotos, favelados da casa do caralho! Qualquer dia ainda pego um.
Os moleques, tamanho de nada, estiram o dedo, mandam tomar no cu, se reiar. Catam mais pedra, pra tacar noutro ônibus que daqui meia hora vem, e no próximo e no próximo.
Felipe Camarão, bairro entre os mais pobres da região Oeste, periferia de Natal. É onde fica a Favela do Fio, que é onde moram os moleques danados que tacam pedra nos ônibus. Isso já vem de um tempo. E é difícil acabar.
Força, repressão, não pode nem resolve, só revolta mais. Que tal, então, tentar a arte, teatro e fotografia, por exemplo, pra trabalhar educação e cidadania por meio de atividades que despertem prazer na molecada e que envolvam o cotidiano e também as famílias?
Foi no que pensou a Associação de Jovens Construindo Sonhos, cujo trabalho, em cinco bairros da região Oeste, volta-se para a formação da cidadania. A empresa Nossa Senhora da Conceição, dona dos ônibus que estão entre os alvos das pedradas, topou a idéia e vai patrocinar a "parada".
Francinaldo da Silva Dantas, 25, coordenador institucional da associação, acredita que só um trabalho assim pode pôr fim àquele vandalismo, mas sabe que não vai ser fácil. O primeiro passo é fazer visitas às famílias, conhecer os problemas, conquistar a confiança, e só depois partir pras oficinas com os meninos.
"A idéia é também abrir um fórum de discussão com a presença de representantes da empresa, das famílias e de entidades que atuam no bairro. Os meninos jogam pedra, mas aí tem a história que eles contam de que é porque o cobrador bota o pé na cara deles quando tentam passar por baixo da roleta. Tem os dois lados, por isso é importante essa conversa", diz Francinaldo.
A Associação de Juventudes Construindo Sonhos é remanescente do Fórum Engenho dos Sonhos, que funcionou de agosto de 2001 a setembro de 2005. Ao chegar ao fim, o fórum deixou bases em cinco bairros da região Oeste - Bom Pastor, Guarapes, Felipe Camarão, Cidade da Esperança e Cidade Nova.
Deixou também bibliotecas, três sedes - em Felipe Camarão, Guarapes e Cidade da Esperança - e equipamentos (câmeras digitais, projetor multimídia, equipamentos musicais, aparelhos de som, quadro negro). E o mais importante: formou lideranças juvenis.
Espalhados pelos cinco bairros da região, esses jovens têm atuado no processo de transformação de crianças e adolescentes em cidadãos, por meio do esporte, da capoeira, do coral, da dança, do teatro e da fotografia.
Para tocar o trabalho, a associação tem parceria com a empresa de consultoria em gestão Aprimor e com a ONG Visão Mundial, que financia as oficinas de teatro, futebol, artes visuais e capoeira.

12 Novembro 2006

Os bambambãs do pedaço - histórias de violência juvenil (parte I de III)


por Itaércio Porpino/foto de Alcemir Varela: Júnior Santos (reportagem publicada na Tribuna do Norte em 12 de novembro de 2006 - com alterações sutis)

Marco Bala, Boy Magno, Ratinho, Boy Léo. Galera cavernosa. Eram "os cara", os reis do pedaço, "os bambambã". Quebrando na porrada e furando de faca "os neguinho" das gangues inimigas, ficaram falados, famosos, temidos. Hoje, "tão tudo" morto, tá ligado? Morreram cedo, uns pelas mãos da polícia, outros nas mãos dos inimigos, que também tiveram vida curta, se acabando ali pelo final da década de 90, na periferia de Natal. A maioria com pouco mais de 20 anos de idade.
Na guerra das gangues e do crime no subúrbio é desse jeito. Não tem vencedor. Nenhuma glória. Dor, apenas. Alcemir Varela da Silva, o instrutor de capoeira "Ralo Pinto", de 37 anos, sabe bem disso. Nos anos 80 e 90, ele foi uma máquina de briga, um dos nomes mais temidos da cidade, junto com os finados Marco Bala, Boy Magno, Ratinho, Boy Léo e outros caras considerados "o terror" na época. Hoje, é uma das vozes contra essa violência que tanto vitima jovens.
É uma outra luta, do lado contrário, difícil também. As estatísticas revelam que um número grande de jovens até 25 anos vem morrendo nas cidades brasileiras. Do início deste ano até aqui, 89 pessoas até essa faixa etária foram mortas na Grande Natal, que abrange Natal, Parnamirim, Ceará-Mirim, São Gonçalo do Amarante, Macaíba e Extremoz.
As reportagens publicadas nos jornais locais, de onde os números foram tirados, mostram que as mortes continuam ligadas à briga de comunidades rivais e ao tráfico de drogas e outros crimes, misturados, hoje, à guerra de gangues de torcidas organizadas de futebol. Uma geração está sendo perdida em acertos de contas, vinganças e brigas banais. Entre outubro e novembro, num espaço curto de dias, nove jovens foram assassinados, e não só da periferia.
Entre os crimes mais recentes estão o de Christian Robert Araújo de Lima, 17, executado no dia 29 de outubro com um tiro na nuca, no conjunto Parque dos Coqueiros; o de Ednaldo Almeida da Silva, 16, assassinado com um tiro pelas costas, na madrugada do dia seguinte, em Macaíba; os de Cleidson da Silva, 22, e Alexandre Carlos da Silva, 20, executados no dia 2 (Finados), um no Alecrim e o outro nas Quintas; o de Henildo Macedo Dantas, 25, morto no dia 5, com dois tiros na cabeça em frente à Shock Casa Show, e o de Raiany Priscila, 15, morta com quatro tiros no último dia 8, na Praia do Meio.
Os assassinatos obedecem a um padrão parecido. Os matadores se aproximam das vítimas, atiram, na maioria das vezes na cabeça, e fogem. Entre todos os casos, têm chamado atenção aqueles ligados a gangues de times de futebol. Há fortes evidências e até informações de que quatro desses últimos jovens foram mortos devido à rixa entre a Máfia Vermelha (América) e a Gang Alvinegra (ABC), times rivais no Rio Grande do Norte. Christian Robert Araújo de Lima, Cleidson da Silva Félix e Alexandre Carlos da Silva eram integrantes da primeira facção; e Henildo M. Dantas, apelidado de "Planta" pelos amigos, era do ABC.

Os bambambãs do pedaço - histórias de violência juvenil (parte II de III)

Os casos de Ruan Tavares, assassinado aos 20 anos no dia 6 de setembro deste ano, e de Henildo Macedo Dantas, morto aos 25 anos na noite do dia 5 de novembro, têm um outro ponto em comum além do fato de terem sido assassinados muito jovens: as famílias dizem que desconheciam qualquer envolvimento dos rapazes em brigas ou crimes.
Depoimentos assim são comuns em histórias com desfechos semelhantes. Ou então os parentes silenciam totalmente. Mas na rua as histórias passam a fazer sentido, na lógica dessa violência. Jovens que conheciam Henildo falam que ele participou e organizou muitas brigas violentas contra integrantes da Máfia Vermelha.
No site de relacionamentos Orkut, os amigos e companheiros dele da TGA (Torcida Garra Alvinegra) criaram uma página para homenagear postumamente o colega, conhecido entre a galera por "Planta". Entre declarações de pesar, saudades e pedidos de paz, aparecem avisos de vingança:
"Companheiro vaum paga kra que fizeram com vc eh noix até céu... guerreiro discanse em PAZ", escreve um integrante da facção. Relatando a última grande lembrança que teve de Henildo, outro posta: "A última vez, acho, q nu jogo do papão aq contra o amerda eli tava com a camisa do floca i tudo, o brother botou as maria pra correr com os manos aq do cmd. Mi lembro como fossi onte, a disposição q o brother tinha era invejável".
As pistas (!) não cessam aí. Henildo deixou a assinatura nos muitos muros do bairro classe média-alta Lagoa Nova, onde morava: o cognome "Planta" embaixo da sigla TGA. A mãe, no entanto, crê que o filho não era envolvido com gangues. "Ele tinha um amor muito grande pelo ABC, isso a gente sabia", disse ela, que acredita na tese do filho ter sido vítima de bala perdida (o rapaz morreu com dois tiros na cabeça). "Outras pessoas também foram atingidas pelos disparos", lembrou, dizendo estar muito abalada ainda com tudo. De dentro de casa, com o portão entreaberto, ela conversou rapidamente com a reportagem e não quis dizer o nome.
Na casa em que Ruan Tavares morou, em Felipe Camarão, uma das tias dele, Fracisca Taveira de Araújo, conversou com a reportagem sem convidar pra entrar. Ela disse que o menino não tinha inimigo. "Não tinha envolvimento com nada nem amizade com vagabundo. Ele tava numa rua próxima com os colegas assistindo um jogo de futebol quando chegou uma pessoa e atirou nele, na cabeça. Ruan trabalhava pra casa, era ajudante de pedreiro. Não sei quem fez isso nem o motivo".
Pessoas que conhecem Ruan da rua contam que ele tinha envolvimento em crimes. É tudo.

Os bambambãs do pedaço - histórias de violência juvenil/entrevista (parte final)

As marcas e cicatrizes de bala e faca que Alcemir Varela da Silva carrega no corpo falam. Elas contam histórias de violência, inúmeras. Coisa pesada. Ele não esconde. Pelo contrário. Faz questão de contar pra que outros jovens não caiam na mesma besteira que ele, de entrar pra gangues e se acharem os tais. Alcemir, o destemido e temido "Ralo Pinto", foi uma máquina de briga. Nos anos 80 e 90, era um dos piores entre os integrantes de gangue, quando turmas de jovens de bairros rivais se digladiavam na mão, a ponta-pés, com facas, punhal, soqueira. Alcemir gostava. Sentia tesão, prazer em bater e apanhar.
Fazia capoeira pra ser bom de briga. Deu muito pau e muita facada em neguinho. Também levou muito pau de polícia e de galera. Chegou a ficar em coma após ser quebrado por uns 20 caras. Levou facada e cinco tiros. Fez sete cirurgias, terminou com uma perna menor que a outra. Mas um dia se decepcionou com a galera da gangue e resolveu que ia sair. Foi quando, no hospital, soube que o cara que tinha atirado nele andava pra cima e pra baixo pelo bairro de Felipe Camarão, seu reduto. Uma questão mais de orgulho.
O importante é que Alcemir deixou de lado a violência. Operou uma transformação radical em sua vida ao conhecer, em 2002, o Fórum Engenho dos Sonhos, que desenvolvia trabalhos de cidadania com crianças e adolescentes da periferia da região Oeste de Natal, onde está o bairro de Felipe Camarão. O trabalho continua, mas agora é coordenado pela Associação de Juventudes Construindo Sonhos.
A bandeira passou a ser a da não violência. É o que Alcemir tenta incutir no juízo de seus alunos de capoeira, uns 60 meninos entre 6 e 20 anos, de bairros da periferia. A sua história dentro das gangues é o exemplo que usa. Não precisa mais que isso. Para ensinar à molecada a ginga da capoeira e da vida, pra que eles não caiam na malandragem, Alcemir recebe um salário da ONG Visão Mundial, organização norte-americana sem fins lucrativos que atua em quase cem países. Depois do trabalho, o capoeirista voltou a estudar e melhorou muito. Fala que virou gente. Tem viajado para participar de fóruns sobre violência e conhecido outras pessoas e lugares. Conquistou a notoriedade e respeito que tanto queria quando adolescente.
Alcemir faz questão de dizer que melhorou sem precisar mudar de nome nem sair do bairro, ou ainda entrar numa igreja e passar a viver com uma bíblia debaixo do sovaco. Mora na mesma casa e ainda usa, na capoeira, o apelido da época barra-pesada: "Ralo Pinto". E é ele quem fala agora:

O que levou você a entrar nesse negócio de gangue?
Alcemir Varela: Queria ser um cara conhecido, ser um cara famoso, queria ser um cara falado, né, como os caras do bairro (Quintas) eram.
Notoriedade?
AV: Isso. Mas também teve a revolta por ser preso, humilhado, espancado, sem ter feito nada.
Como foi?
AV:
Eu vinha de um comício às 12 horas da noite. Tinha acontecido uma morte no comício e estavam procurando quem tinha matado o moleque. Eu não tinha documento na época e me pegaram. Fiquei passeando na viatura com eles, eles me ameaçando, uma pressão psicológica muito grande para assumir o crime.
A polícia bateu?
AV: Apanhei e muito nesse rolé na viatura. Nessa época era até um fusca. Tinha 16 anos. Foi uma experiência horrível. Fiquei revoltado.
Ficou na cadeia quanto tempo?
AV: A noite todinha. De manhã mãe foi me pegar, lá na Ribeira.
E ela, como reagiu?
AV: Eu pensei que ia apanhar, mas ela nem bateu em mim, mas ficou decepcionada. E assim, a história de eu ir pra escola do governo foi porque perdi uma bolsa da escola particular. E ela revoltada, disse: "você faça sua matrícula onde quiser. Se vire". E eu fui lá no Ferreira Itajubá, onde tava a galera.
Você ainda não era de gangue?
AV: Não. É tanto que os caras da gangue das Quintas e o cabeça, chamado "Da Lua", estudavam na mesma sala que eu no Ferreira Itajubá. Lá tinha uma quadra e quando a aula terminava era onde a galera se reunia. Eu num tinha coragem de ir pra quadra e nem eles me chamavam porque eu era prego (otário). Mas foi aí que eu comecei. Em 89, quando vim pra Felipe Camarão, já tava ganhando nome, tava ficando falado, tinha muitos inimigos. Foi bem fácil me entrosar com a galera daqui. Uma galera meio cavernosa. Em Camarão nós temos várias comunidades, mas a que reinava era a do Promorá, a que eu fiz parte e depois liderei. Tinha uma galera falada, cara. Marco Bala, Buíca, uma galera cavernosa mesmo.
Onde tá esse pessoal?
AV: Tão tudo morto. Marco Bala tá morto, Ratinho tá morto, o Buíca foi embora pra São Paulo, não sei se tá vivo ainda. Era uma galera muito pesada e foi a galera com quem eu comecei a andar lá. Andei um tempo com a galera de Marco Bala. Depois andei com a de Boy Magno, que também foi líder um tempo, depois a polícia deu fim a ele. Quando boy Magno sumiu aí ficou Boy Léo. Boy Léo sumiu e eu fiquei no lugar.
Quem eram os inimigos?
AV: Eram o bairro Nordeste, Guarita, o pessoal do Alecrim, o pessoal das Rocas. Aqui era Felipe Camarão, Guarapes, Cidade Nova, Cidade da Esperança e Barreiros. Foi muito pau esse tempo, até 98. Foi muito pau, muito pau mesmo. Até 94 eu não tinha levado tiro nem nada. Tinha levado muito pau. Levei pau de polícia, levei pau de galera, uns 20 caras me pegaram e me deixaram em coma, todo inchado, no Walfredo um bocado de dia. Mas não tinha levado nenhum tiro ainda. Em 94 levei o primeiro tiro, no joelho.
Quem foi?
AV: Um tal de Joelson Neguinho, de Cidade Nova. Eu tinha quebrado ele num comício fazia um tempo. Eu pensei que ele tinha esquecido, mas quando foi uma noite, numa festa que a gente foi lá na quadra, três e meia da manhã, pegaram a gente de surpresa no meio do caminho. Estavam intocados, quatro caras esperando. A galera vinha a pé, eles atiraram na turma todinha. Um tiro pegou aqui (mostra a marca da bala no joelho direito), bem em cima da rótula, e eu não pude correr, caí no meio da rua. Foi a primeira vez que levei tiro. Olhe bem que eu já estava saindo, não tava mais nem com essa tesão toda. Já tinha morrido muito colega meu nessa onda. Quando levei esse tiro, eu tava andando com a galera de Boy Magno. No outro dia ele teve lá em casa com a galera todinha.
Foi só aí que sua mãe descobriu o que você andava fazendo?
AV: Foi. Minha mãe não sabia do meu envolvimento, por incrível que pareça. Ela veio saber porque a galera foi lá em casa me visitar. Chegou um monte de cara lá, tudo de revólver na cintura, de revólver na mão. "Meu irmão vamo dar o troco"... Aí eu disse: ói mãe, essa é a galera que eu ando e tal... Pra ela saber, porque nunca tinha ido polícia lá em casa, nunca foi inimigo lá em casa. Aí, pronto, ela ficou sabendo disso e eu abri o jogo com ela. Contei algumas coisas, não tudo.
O que você fazia?
AV: O meu forte dentro da gangue era a briga. Eu era muito louco pela aventura, de ter inimigo, de brigar. Sempre fui fã de briga. Esse era o meu forte. Roubar não era muito comigo, apesar de ter feito alguns delitozinhos. Também não era muito chegado a drogas. A minha família já tinha história de alcoolismo e eu não achava legal. Não fumava, não bebia, mas gostava da briga. Ganhei nome quebrando os caras pior do que eu. Em festa de comício, numa praia, se visse um cabeça de outro bairro, era o cara que eu escolhia pra quebrar.
Essas brigas eram marcadas?
AV: Não, casual. A gente ia pra uma festa, na Assen, Camana, Quintas Clube, nessa época os clubes eram esses, e se encontrava. Aí já viu, né. Na época o auge era Quintas, Rocas e Guarita, os três bairros mais falados.
O que você viu tanto?
AV: Rapaz, de tudo. Só não cheguei a ver estupro. Mas de assalto a homicídio eu vi, e eu metido no meio; de 15 a 20 caras pegar um só e estourar de chute, de porrada, de facada e tudo no mundo... Isso era o mínimo. As passeatas antigamente eram a noite todinha andando. Geralmente quando tinha passeata dos candidatos, a gente se encontrava ali na Urbana... Era um ponto. O ponto das Quintas, onde as Quintas se reuniam. Depois do comício, a passeata saía até à praia, geralmente era assim. E a galera ia no meio. No bairro que a gente ia passando a gente ia quebrando. Se encontrava um no meio do comício ou algum cara que era de outro bairro, corria atrás, pegava e arregaçava.
Eram sempre rivais, gente conhecida?
AV: Geralmente a gente conhecia a pessoa, mas às vezes, como corria todo mundo junto, a gente pegava quem não tinha nada a ver. As minhas vítimas eram todos caras que eu conhecia. Eu era meio justiceiro. Queria os caras que me deviam. Tinha aquela história de defender o bairro, de manter o nome.
Mas tinha vingança também...
AV: A vingança era por morte de caras do bairro. O negócio era manter o bairro como o mais considerado, o mais temido.
Você chegou a matar alguém?
AV: Muitas vezes a gente pegava o cara, dava chute, facada e deixava lá, praticamente morto. Mas eu não sei. Pessoalmente, não cheguei a matar ninguém não, mas dei muita facada em neguinho, furei muito neguinho, dei muito pau em neguinho. Nas Quintas pouco se usava arma de fogo. Em Camarão, também ficou um tempo sem. Era mais faca. Eu, por exemplo, tive uma escolha muito por arma branca. Punhal, soqueira, faca, essas coisas assim. Nunca gostei de arma de fogo. Só vim usar depois que levei tiro.
O que levou você a se afastar das gangues e a mudar de lado, combater a violência?
AV: O que houve foi a decepção com as gangues. Eu andei nelas até 99, quando levei quatro tiros. Foi o mais grave que aconteceu comigo. Tinha levado muito cacete, lascaram minha cabeça duas vezes, deram facada nas minhas costas, mas não tinha sido nada grave de eu ficar internado meses e meses. Em 98 e 99, tive outras brigas com a gangue de Cidade Nova. Numa delas, no Petiscão, um clube que tem no bairro, a gente deu um pau no cabeça da gangue. Isso foi no sábado à noite. No domingo, o cara ficou descansando porque o pau que levou foi fuderoso.
E a decepção?
AV: Eu sabia que ele ia vir me pegar. Na segunda de manhã me procurou mas não achou porque eu tava trabalhando. Liguei prum colega meu que era traficante e morava no Detran (favela) e que já morreu também, inclusive morreu novo... Liguei pra ele pedindo um ferro (revólver) emprestado, porque eu tinha brigado com um cara e tava na mão. Ele disse que de noite passava na minha casa e me dava o negócio. Eu tive um vacilo de não ficar esperando o cara em casa, de ir lá pra esquina. Então passou uma pessoa na moto e me viu, foi lá e trouxe o cara. Eles vieram a pé. Tava eu e a galera conversando quando eles chegaram e enquadraram a gente. Disseram que não era pra correr ninguém. Eu corri porque vi que ia morrer e não queria morrer parado. Ele correu atrás de mim e começou a atirar.
Quantos tiros dessa vez?
AV: Ele deu o primeiro tiro, que acertou minhas costas, atravessou e pegou uma veia do reto. Caí, levantei e continuei correndo. Ele deu outro tiro, errou. Deu o terceiro, que acertou a minha coxa, entrou do lado e saiu do outro, e eu continuei correndo. Ele deu um na minha perna que torou. Aí eu fiquei caído. Ele deu um tiro no joelho que atravessou e ficou na frente alojado. Depois desses tiros, eles foram embora. Eu fui pro Walfredo, passei 22 dias internado. Tinha torado a perna. A grande decepção, a saída do crime foi essa. Eu no hospital internado, soube por minha namorada que o cara que atirou em mim tava andando lá no bairro pra cima e pra baixo. Eu fiquei revoltado. Eu disse: não acredito não. E ela: "tá. Já vi ele de bicicleta, a pé, a cavalo". Fiquei revoltado e disse a galera lá: "pô, por que vocês não derrubaram o cara ainda? Ó meu irmão, se fosse eu que estivesse lá e fosse um de vocês que estivesse aqui e eu desse de cara com ele, ele já tava no chão". Fiquei decepcionado, foi uma grande decepção, porque a minha vida todinha foi defendendo os caras, comprando a briga dos caras e na hora que eu precisei os caras não tiveram coragem.
E depois?
AV: Saí do hospital. Ele deu cinco tiros em mim e acertou quatro. Dos quatro dois eram de um tipo de bala especial para quebrar osso. Eu comprei seis dessas com um policial colega meu e também um ferro, pois eu trabalhava numa fábrica e estava recebendo dinheiro pela perícia. O doutor deu um ano pra eu pisar no chão, mas com sete meses eu já tava pisando. Minha recuperação foi muito rápida e eu só saí de casa quando tirei as muletas. Aí comecei a andar armado pra todo canto. Até pra igreja, quando ia deixar mãe. Armado direto, direto, 24 horas. Mas não procurava mais briga, não tava mais comprando briga dos caras, num tava mais na fulerage.
A intenção era se vingar?
AV: Só tava na minha. Se me encontrasse com ele, só ia ficar um no chão. Em 2000 ou foi em 2001, a gente se encontrou no Arraiá do Aquino, eu e o cara. A turma de Camarão tava todinha lá. Ele viu e foi lá onde a gente tava, ele e outro maluco. Pediu desculpa, disse que deu os tiros em mim porque eu fiz um arrumado pra ele levar uns pau e não sei o que, e quis saber porque eu ia matar ele. Eu disse: Véio, eu não falei isso não, que ia matar você não. Só falei que se eu me encontrar com você lá no bairro só vai ficar um em pé. Isso eu falei.
Isso chegou a acontecer?
AV: Não. Eu acho que um ano depois ele morreu. Fez um arrumado lá pra Zona Norte. Deram uns pau nele, deram uns tiros. Parece que ele ia ficar aleijado e preferiu morrer.
Foi quando você abandonou a gangue?
AV: É. Em 2002 saí da fábrica e fiquei sem fazer nada. Então entrei pro projeto de capoeira do Engenho de Sonhos (o Engenho acabou e hoje o trabalho é feito dentro da Associação de Juventudes Construindo Sonhos). Eu já fazia capoeira muito antes, mas era com a intenção de ficar bom de briga. No projeto passei a encarar de forma diferente. Os meninos chegam e dizem: "eu quero lutar capoeira". Aí eu falo: não é lutar, é jogar, brincar, dançar. Não gosto dessa palavra luta.
Você usa sua história como exemplo, pra que eles não entrem na mesma onda?
AV: Aquela foi uma experiência muito louca e eu levo muito para a minha vida hoje dentro da capoeira. Tudo de ruim que aconteceu eu uso para que os meninos não se envolvam com gangues ou crimes. A história de ser famoso, de querer ser o cara, de querer ser o bambambã, de não agüentar um tapa na cara, de ter que dar o troco, tudo isso eu trabalho com meus alunos.
Você faria de novo?
AV: Não. Hoje se baterem na minha cara, fica batido. Não vale à pena. Foi uma experiência, eu fazia porque gostava, era emocionante. Tudo que era arriscado eu gostava de fazer, até surfar em cima de ônibus. O meu hobby era subir na torre de energia e ficar olhando o bairro lá de cima.
Que prazer era esse?
AV: Adrenalina. Hoje eu gasto ela na roda de capoeira.
A saída é direcionar a energia pra coisas construtivas, boas?
AV: Pro lado positivo. É em cima disso que eu trabalho com a molecada. Tenho alunos que vão dos seis aos vinte anos, o público que tá no alvo da violência, que tá atrás de emprego, atrás de ocupção e que encontra os maluquinhos pra fazer as besteiras. A ociosidade leva a isso e também o consumismo. O cara vê na televisão o tênis de marca e quer ter. Aí ele não trabalha, não tem dinheiro e vai roubar, traficar.
E essa violência toda de hoje, das brigas de torcida organizada, como você vê?
AV: Está tudo muito misturado. A polícia parou um ônibus da torcida do Esporte um dia aí e tinha droga, tinha arma, tudo no mundo. Então tá misturado. Os caras tão aproveitando as brigas de gangue e se encaixando, entrando dentro das torcidas organizadas. Tão misturando a história da violência urbana, da droga, da rivalidade entre bairros mesmo. Tem uma coisa muito séria acontecendo nessa onda de gangues de time. Estão nomeando os colégios. Tem colégio que é gangue X e colégio que é gangue Y.
É perigoso...
AV: É sim. Primeiro a briga é: eu sou ABC e você é América. Depois é: eu sou do Atheneu e você do Felipe Guerra. Tá entendendo como é? Um dia o cara não vai estar com a camisa do time e sim com a camisa do colégio. Aí o da outra escola vai meter bala na frente do colégio rival e em quem tiver na frente? Vai ser pior ainda quando começar a envolver os colégios. E isso já ta acontecendo. Aí também vem a história da droga, a história do moleque que não trabalha e que por isso vende as coisas em casa pra conseguir o ingresso pra ir pro jogo. Um irmão de uma amiga minha roubou o celular da irmã pra ir pro jogo. Disse que roubaria de novo. Quando o time vai jogar fora, fica aperreando o pai e a mãe porque quer ir. É complicado. Também tem muito cara de laranja, indo no embalo. Muita criança falando que é da Máfia e Gang mas não sabe nem o que tá dizendo. Essa bandeira que eu defendo contra a violência é porque percebo que cada dia tá pior. Na minha época, você começava a andar de galera já grande, com 14, 15, 16 anos. Hoje, os caras tão andando com 11, 12 anos. E tão morrendo muito mais cedo.

03 Novembro 2006

Ariel e os Cavaleiros Demoníacos contra Rebelóide
(uma crônica contemporânea infantil... mas nem tanto)


Para Ariel

Cara medonha aquela. Os cabelos amassados, amarelos puxando pra castanhos; as bochechas infladas como balões de aniversário, vermelhos, em vias de explodir; a testa franzida, as sobrancelhas empurrando para baixo os olhões, azuis escuros, furiosos.
Não vou pra escola, sentenciou Ariel, ainda na cama.
Sete anos e já dono do nariz, empinado por natureza. Num dia era uma dor de cabeça, tremenda; noutro uma coceira no dedo mindinho do pé, que não sarava; daqui a pouco uma pintinha branca na unha, imperceptível e indolor, ia bastar como desculpa.
Qual a cascata da vez pra fugir à aula, insuportavelmente chata? Não falou. Motivo grave não haveria de ser, imagine. Ariel pediu papel e caneta e escreveu, revelando o mal, abominável, em tinta azul:
Todo dia no recreio a professora bota Rebelóide.
Como assim não era grave? Era, e muito, viu. Coisa do Cão aquele grupo e suas cançõezinhas fedorentas derretedoras de cérebros. Salve-se quem puder! Ariel preferia ver o Diabo ou dar de cara, na badalada da meia-noite, com a aberração do Maicon Jecksus (não tem jeito dele pronunciar direito).
Muito a contra-gosto foi pra escola. Mas ia encrencar, ah se ia, com a professora e os fãs de Rebelóide, um exército mirim. Ia ter com Deus, o mundo e o Diabo (tantas fossem suas fuças e tantos fossem seus nomes) pra acabar com aquilo. O engodo musical do momento, saído de um folhetim trash juvenil, quadrado que só ele - mexicano, só podia ser -, estava com os dias contados na escola.
A batalha travada foi foda. Um grupo de meninas atacou de Rebelóide, cantando aos berros uma das azucrináveis canções do azucrinável grupo. Parte da pequena horda anti-Rebelóide bateu em retirada diante da investida, com seqüelas profundas no cérebro.
Golpe mais sujo não podia, nem a artilharia de caraca, que os meninos sacaram lá do fundo do buraco do nariz pra tacar no exército inimigo. Após muitas baixas, as partes chegaram a um acordo tácito, mediado pela professora, claro. Não ia ter mais Rebelóide no recreio (viva!), mas também aos meninos estava vedado o direito de jogar Cavaleiros Demoníacos.
O acerto não foi dos mais justos, já que o jogo de cartas não atazanava ninguém e até servia pra ensinar um pouco de matemática - noções de > (maior quê), < (menor quê) e = (igual). Mas foi a condição. Qualquer coisa pra não agüentar Rebelóide, pensou Ariel. Além do mais, ele já tinha bolado um plano de vingança, diabólico, que executaria em casa, sozinho. Pegou papel e caneta e desenhou, revelando o final, macabro, que guardou para o odioso grupinho musical.
Caras medonhas aquelas. Os corpos com chifres por todo lugar, enormes, pequenos, retos, curvos, de todo tipo; os olhos soltando fogo, vermelhos; as bocas deixando escorrer um monte de baba. Os Cavaleiros Demoníacos foram impiedosos com os seis jovens do Rebelóide, que só de medo perderam a voz, pra sempre. O resto é bom não dizer, até porque essa é uma história pra criança. Esqueceu, foi?
Ariel guardou a história na gaveta e foi dormir, ansioso para mostrar na escola e completar a vingança. Na manhã seguinte, acordou com uma coisa chata na cabeça, renitente, latejante, martelante, incomodante, tiradora de juízo. Que nem um vírus, uma cançãozinha fedorenta do Rebelóide se alojou no cérebro, entrando pelo ouvido, e cadê sair mais?
Cara medonha aquela. Os cabelos amassados, amarelos puxando pra castanhos; as bochechas infladas como balões de aniversário, vermelhos, em vias de explodir; a testa franzida, as sobrancelhas empurrando para baixo os olhões, azuis escuros, furiosos.

22 Outubro 2006


O triste fim de Júlia Augusta ou Rocas-Quintas (parte I)


por Itaércio Porpino ( reportagem publicada no jornal Tribuna do Norte em 18 de setembro de 2005)

Natal, década de 60, em algum lugar entre os bairros das Rocas e Quintas.
Garotos se divertem provocando uma senhora trôpega, suja e maltrapilha. Os meninos fazem coro: "Rocas-Quintas"! E ela, com o dedo em riste, revida: "Me respeitem, que eu tive vida importante"! A zombaria continua, e a mulher, que se tornou folclórica por fazer todo santo-dia, a pé, o mesmo itinerário da linha de ônibus Rocas-Quintas (daí o apelido), retoma as passadas ligeiras e nervosas, parando sempre para catar lixo e restos de coisas podres.

Caicó, final da década de 50.
Júlia Augusta de Medeiros, uma das mulheres pioneiras no jornalismo e na educação no Rio Grande do Norte nos anos 20, feminista, mulher de idéias avançadas, com participação destacada na vida pública e política do RN, tendo sido uma das primeiras mulheres a votar no Estado e exercido dois mandatos como vereadora, começa a apresentar lapsos de memória e a perder a sanidade mental. O estado de saúde vai se agravando e ela, que desafiara a sociedade assumindo uma postura ousada, termina seus últimos anos deprimida em Natal, no mais completo ostracismo, perambulando pelas ruas feito mendiga.

Júlia Medeiros, educadora e jornalista que um dia teve lugar cativo nas rodas de intelectuais, gozando da amizade e apreço de gente como Câmara Cascudo e Palmira Wanderley, é a mesma Rocas-Quintas. Em um minucioso trabalho investigativo, o jornalista natalense Manoel Pereira da Rocha Neto, 33, conseguiu unir os dois capítulos extremos dessa história e contá-la na íntegra pela primeira vez. "Júlia teve um passado obscuro, que ficou perdido, pois enquanto Rocas-Quintas ela falava quem tinha sido e ninguém acreditava. As pessoas a insultavam e a depreciavam", diz Manoel.

O objetivo de sua tese de doutorado no Departamento de Educação da UFRN, dentro da base de pesquisa Gênero e Práticas Culturais, era (e foi) falar das práticas pedagógicas de Júlia enquanto educadora, mas o jornalista acabou também mergulhando fundo na vida da personagem à medida que descobriu história tão rica e dramática.

O autor, além de conseguir conceito máximo com a tese, acabou quitando uma dívida com a memória de Júlia Medeiros. "Em cinco anos de pesquisa, não encontrei quase nada em livro, a não ser algumas poucas citações, e também uma monografia do curso de História, em Caicó, sobre Júlia, mas muito superficial. A casa em que ela morou em Caicó foi demolida e no lugar existe atualmente uma boutique. Já a casa em que ela viveu em Natal, na rua da Misericórdia, Cidade Alta, foi demolida para a construção de uma praça. Até o túmulo e seus restos mortais, no Cemitério Parque, em Caicó, foram violados e extraviados. Ela não tem direito sequer a ser lembrada como cidadã no Dia de Finados. Em sua cidade natal, deu nome a uma rua e a uma escola. Foi só", fala.

A história de Júlia Medeiros, do nascimento à morte (1896 a 1972), foi totalmente reconstituída pelo jornalista Manoel Pereira da Rocha Neto e contada com riqueza de detalhes em seu trabalho. A maior parte das informações ele coletou com pessoas que foram vizinhas de Júlia, em Caicó e em Natal, e com os ex-alunos dela. "Foi uma pesquisa difícil. A família dela ofereceu muita resistência. Somente uma sobrinha sua, Julieta Dantas, que vive em Caicó, ajudou, cedendo inclusive um farto material fotográfico", conta Manoel, que chegou a pagar para conseguir uma cópia do atestado de óbito de Júlia Medeiros/Rocas-Quintas.

"A família não quis ceder, então fui até o 4º Ofício de Notas e paguei por uma cópia", conta Manoel. O laudo deixa em dúvida se Júlia cometeu suicídio, mas o jornalista acredita que ela tenha mesmo se matado. "Acho que o ostracismo e a depressão contribuíram para isso. Há um detalhe importante: Júlia morreu na madrugada do dia seguinte ao seu aniversário. Acho que em sua loucura ela pode ter tido um momento de lucidez e lembrado a data".

E esse não teria sido o único momento de lucidez em sua fase de loucura e mendicância. Certa vez, conta Manoel, ela ficou parada observando por bastante tempo a vitrine de uma loja de roupas. Quase foi presa ao tentar entrar. Isso só não aconteceu porque na hora passou uma pessoa de Caicó que a conhecia e contornou a situação. "Penso que ela estava recordando sua época de moça. As moças da alta sociedade caicoense só vestiam as roupas feitas por Maria do Vale Monteiro, costureira mais famosa da cidade. Mas antes Júlia tinha que vestir e aprovar. Por causa do corpo bem feito, ela era uma espécie de manequim no município".

O jornalista conta que, antes disso, Júlia havia adquirido uma máquina Singer pensando em fazer os próprios vestidos, como forma de relembrar a época áurea. Ela comprou em dez vezes sem juros, na Loja Natal, o que já era um sinal também de sua fragilidade financeira.

"Júlia veio para Natal já doente e, aposentada e deprimida, começou a perambular pelas ruas, levando sempre junto ao corpo um monte de penduricalhos. A cada dia seu estado mental ia se agravando. Ela já não cuidava da higiene, catava lixo e andava com roupas em trapos. Ninguém acreditava quando dizia ter sido uma pessoa importante", diz Manoel.

A aposentada Lúcia Bruno Damasceno mora na rua da Misericórdia, onde Rocas-Quintas viveu de 1960 até 1972, e confirma a informação do jornalista: "Ela vivia na rua catando coisas e entulhava tudo num porão em casa. Costumava dizer que foi uma mulher de destaque em Caicó, mas ninguém acreditava".

O triste fim de Júlia Augusta ou Rocas-Quintas (parte II)


Exceção entre as meninas de seu tempo, Júlia Medeiros teve a sorte de pertencer a uma família abastada e de visão pedagógica diferente da maioria das famílias do início do século 20. O pai, Antônio Cesino Medeiros, detentor de grandes propriedades de terra em Caicó, sendo a maior e mais próspera delas a fazenda Umari, onde Júlia nasce no dia 28 de agosto de 1896, cuida desde cedo para que a filha tenha acesso à educação. A menina aprende as primeiras letras em casa com um mestre-escola e depois é mandada para estudar em Natal.
Júlia deixa Caicó no ano de 1910. Com 13 anos, enfrenta uma jornada de oito dias em lombo de burro. Era uma comitiva em que estavam outras duas moças, Olívia Pereira e Maria Leonor Cavalcanti. A futura feminista hospeda-se em uma casa na Ribeira - a do professor de português João Vicente - e passa a estudar no Colégio Imaculada Conceição, onde conclui o ginásio. Em 1920, faz a seleção para a Escola Normal de Natal.
Forma-se em 1925 e, um ano depois, volta a morar em Caicó, passando a lecionar no Grupo Escolar Senador Guerra, a mais conceituada instituição de ensino do município. A essa época já escrevia para o "Jornal das Moças", periódico que logo passa a redigir sozinha com a saída da fundadora, Georgina Pires. A publicação, um marco no jornalismo feminino no Rio Grande do Norte, dura de 1926 a 1932.
Júlia Medeiros também já participava ativamente da vida pública de Caicó, envolvida com a elite intelectual e política da cidade. Ela foi amiga, entre outros, de Juvenal Lamartine, senador e governador em meados da década de 20, e de José Augusto Bezerra de Medeiros, governador que dominou a política no RN até 1930.
Considerada exímia oradora, Júlia notabiliza-se por questionar, em seus discursos de improviso, a condição da mulher da década de 20 - cuja vida resumia-se aos afazeres domésticos. Em suas falas em público, exigia, principalmente, o direito à educação e à cidadania. Sua amizade com a feminista Berta Lutz e suas idas ao Rio de Janeiro - onde tomava conhecimento da modernidade - fortaleciam ainda mais seus ideais. Júlia choca a sociedade caicoense com seu comportamento avançado. Ela passa a usar roupa preta - cor condenável a não ser em ocasião de luto - calça jeans e costas nuas. Ao aparecer nas ruas dirigindo um automóvel - um ford 29 (baratinha) que compra no Rio de Janeiro com dinheiro do próprio trabalho - promove um escândalo. Choca mais uma vez a sociedade ao recusar um pedido de casamento e ao ir morar sozinha, na casa de número 157 da rua Seridó.
O preço da "ousadia" acaba sendo alto. Júlia passa a ser excluída e alvo de preconceito. Na rua, é perseguida pelas crianças, que entoam uma cantoria assim: "Júlia Medeiros no seu carro ford, virou a princesa do caritó".
Antes de aposentar-se como professora, em 1958, se candidata a vereadora, sendo eleita para dois mandatos, de 1951 a 1954 e de 1954 a 1957. É nesse período que começa a apresentar lapsos de memória e a ficar perturbada mentalmente. Em 1960, a família a leva para Natal, entendendo ser essa a melhor opção. Júlia passa a morar sozinha, por vontade própria, em uma casa de frente para o rio Potengi, na rua da Misericórdia. Seu quadro de saúde vai se agravando e, na madrugada do dia 29 de agosto de 1972, aos 76 anos, morre como a mendiga Rocas-Quintas. Louca, pobre, esquecida e insultada; excluída da sociedade e da história.